Quando a recaída começa?
Imagine uma pessoa que está passando por um processo de recuperação da dependência química. Ela já está há um bom tempo sem fazer uso de substâncias, ainda vive em um ambiente protegido e participa constantemente de terapias, grupos de apoio e atividades voltadas à manutenção de sua recuperação.
Depois de um longo período, chega um momento importante: o processo de ressocialização.
Ela volta para casa, consegue um emprego e começa novamente a ocupar seu espaço na sociedade. É uma conquista enorme, mas também o início de uma nova etapa, na qual precisará colocar em prática, no cotidiano, tudo aquilo que aprendeu durante o período de recuperação.
Primeiro mês
No início, seu foco está completamente voltado para a nova vida.
Mesmo trabalhando, continua frequentando os grupos de apoio, mantém suas terapias e procura preservar a rotina que construiu durante o tratamento. No ambiente profissional, cumpre suas responsabilidades e mantém bem definidos seus objetivos.
Trabalho, recuperação e vida pessoal caminham juntos.
O primeiro mês termina muito bem.
Segundo mês
Com o passar do tempo, o ambiente de trabalho deixa de ser novidade.
Ele começa a conhecer melhor os colegas, cria vínculos e passa a fazer parte de pequenos grupos durante os intervalos. Surgem conversas descontraídas, brincadeiras, cigarros e assuntos que antes não faziam parte de sua rotina.
Nada disso, isoladamente, significa uma recaída.
Conviver, fazer amizades e reconstruir relacionamentos fazem parte da ressocialização.
Entretanto, quase imperceptivelmente, algumas prioridades começam a mudar.
Terceiro mês
A pessoa ainda se considera completamente comprometida com sua recuperação. Continua dizendo para si mesma que sabe de onde veio e que jamais deseja voltar para aquela vida.
Porém, sua frequência nos grupos de apoio começa a diminuir.
Ao mesmo tempo, os novos amigos ocupam cada vez mais espaço em sua rotina. Entre eles existe uma moça muito simpática. A amizade cresce, o interesse aparece e aquele novo círculo social torna-se ainda mais importante.
Na última sexta-feira do mês surge o primeiro convite:
— Vamos para o happy hour?
Ele pensa por alguns instantes, mas recusa.
Ainda existe uma percepção muito clara do risco.
Quarto mês
Agora as coisas estão diferentes.
Os grupos de apoio, antes constantes, tornaram-se esporádicos. As terapias, que faziam parte da rotina, praticamente desapareceram.
Não houve uma decisão consciente de abandonar a recuperação.
Ele simplesmente foi deixando.
Uma falta aqui.
Outra ali.
Um compromisso que parecia mais importante.
Uma justificativa perfeitamente aceitável.
E outra.
A moça simpática também já não é apenas uma amiga.
Então surge novamente o convite para o happy hour.
Dessa vez, a resposta é diferente:
— Tudo bem. Eu vou. Mas não vou beber.
Ele vai.
Os amigos bebem, conversam e se divertem. Ele permanece com eles durante toda a noite.
E realmente não bebe nenhuma gota de álcool.
Volta para casa satisfeito.
Mas aquela aparente vitória pode esconder um perigo.
Porque uma nova ideia começa a ganhar força:
“Eu consigo me controlar.”
Algumas semanas depois
A rotina de recuperação praticamente desapareceu.
Grupos de apoio já não fazem parte da agenda. As terapias ficaram para trás. A convivência com pessoas ligadas à recuperação diminuiu enquanto o novo círculo social passou a ocupar aquele espaço.
Chega outra sexta-feira.
Outro encontro.
Outra mesa.
Outra oportunidade.
Dessa vez acontece.
— Só um copo de cerveja. Nada mais.
Ele bebe.
E o primeiro copo chama o segundo.
Mesmo assim, a noite termina sem maiores consequências.
No dia seguinte, em vez de enxergar aquilo como um sinal de alerta, surge uma interpretação completamente diferente:
“Eu bebi e consegui parar. Está vendo? Agora eu tenho controle.”
Esse pensamento pode se tornar muito perigoso.
Porque aquilo que antes era considerado impossível passa a parecer administrável.
A próxima sexta-feira
Dessa vez ninguém precisa oferecer.
Ele mesmo pede a cerveja.
Depois vem outra.
Logo a cerveja já não é suficiente.
Vem o conhaque.
A tequila.
As barreiras que durante tanto tempo foram construídas começam a cair rapidamente.
E aquela noite termina muito longe do lugar onde começou.
Em um quarto de hotel barato, aparecem as primeiras carreiras de cocaína.
Depois, uma lata improvisada.
Uma pedra de crack.
E, diante dele, está novamente a substância da qual durante tanto tempo lutou para permanecer distante.
Mas seria um erro olhar apenas para aquele quarto e dizer:
“Foi aqui que aconteceu a recaída.”
Talvez aquele tenha sido apenas o momento em que a recaída se tornou visível.
O processo vinha acontecendo muito antes.
Começou quando aquilo que sustentava a recuperação foi sendo deixado de lado.
Quando uma falta ao grupo deixou de preocupar.
Quando a terapia deixou de parecer necessária.
Quando antigos limites começaram a ser negociados.
Quando situações de risco passaram a parecer seguras.
Quando o pensamento mudou de “eu preciso cuidar da minha recuperação” para “agora eu consigo me controlar”.
A recaída não acontece da mesma maneira para todas as pessoas e não existe uma sequência inevitável que leve alguém novamente ao uso. Porém, muitas vezes, o consumo da substância é a etapa final de um processo que começou muito antes, por meio de mudanças graduais nos pensamentos, comportamentos, relacionamentos e na rotina que sustentava a recuperação.
O que a Palavra de Deus pode nos ensinar?
“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.”
É incrível como um texto tão antigo pode ser tão atual em nossos dias. Isso acontece porque a Palavra de Deus permanece viva e atual, falando conosco em diferentes épocas e circunstâncias.
Mas quero trazer para nossa reflexão algo que tenho aprendido no decorrer dos meus dias.
Ao contrário do que muitos podem pensar, eu não sou escritor nem pregador. Sou alguém que viveu e que ainda traz no corpo as marcas da dependência química.
E aprouve ao Senhor me ensinar um pouquinho de programação para que eu pudesse compartilhar com outras pessoas aquilo que Deus, pela sua misericórdia, tem me ensinado.
Tiago, no primeiro capítulo de sua carta dirigida aos judeus dispersos, trata de algo que constantemente enfrentamos em nosso dia a dia: tentações e provações.
Isso não acontece somente com um grupo específico.
Todos nós — cristãos ou não cristãos, homens ou mulheres, dependentes químicos ou não — enfrentamos tentações e provações.
Entretanto, quero trazer esta reflexão especialmente para um grupo: o dependente químico.
Se você leu a história acima, saiba que ela não é uma mera ficção.
Talvez, enquanto lia, você tenha pensado:
“Eu já passei por isso.”
Ou:
“Meu filho passou por isso.”
Talvez tenha se lembrado de um irmão, amigo, marido, esposa ou de alguém que conheceu.
Se olharmos ao nosso redor, certamente encontraremos pessoas que estão vivendo ou já viveram algo semelhante.
A dependência química está em todos os lugares e alcança todas as classes sociais. Para ela, pouco importa se alguém é filho de empresário ou de operário, filho de pastor ou de alguém que nunca entrou em uma igreja.
Ela não escolhe posição social, formação acadêmica ou condição financeira.
E, quando consegue espaço, derruba, destrói e pode matar.
Mas não precisa terminar assim.
Existe uma saída.
E aqui preciso abrir um parêntese.
Quando eu mesmo já não acreditava
Eu fui uma das pessoas que não acreditavam mais que existisse uma saída.
Durante minha vida foram tantas recaídas, tantas tentativas, tantos altos e baixos, que chegou um momento em que eu mesmo já não acreditava que pudesse ser liberto.
Então, um dia, Deus, em sua infinita misericórdia, colocou no meu caminho pessoas que, até aquele momento, eram completamente desconhecidas para mim.
Deus as usou para demonstrar um amor tão grande que, mesmo sem acreditar que alguma coisa pudesse mudar, resolvi dar uma chance.
Não uma chance para mim, porque naquele momento eu já não acreditava em mim.
Dei uma chance para que aquelas pessoas me convencessem de que ainda era possível.
E elas me convenceram.
Foi assim que iniciei meu processo de recuperação.
Hoje, olhando novamente para a Palavra do Senhor e especialmente para Tiago 1:14–15, percebi algo que me deixou maravilhado e que senti necessidade de compartilhar.
Guardadas as devidas proporções do contexto bíblico, aquilo que Tiago descreve nos oferece um princípio que nos ajuda a compreender o que, na recuperação, conhecemos como processo de recaída.
Observe a sequência.
Tiago não começa falando do pecado consumado.
Primeiro existe a tentação.
Depois alguém é atraído.
O desejo é alimentado.
Ele é concebido.
Então dá à luz o pecado.
E o pecado consumado produz suas consequências.
Existe um processo.
Antes de chegar às mãos
Talvez seja exatamente aqui que esteja uma das grandes lições para nós que estamos em recuperação.
Durante a caminhada podemos ser tentados muitas vezes.
Memórias podem surgir.
Desejos podem aparecer.
Lugares, pessoas, situações, sentimentos e determinados períodos da nossa vida podem despertar coisas que imaginávamos ter deixado definitivamente para trás.
Ser tentado, porém, não significa necessariamente ter recaído.
A questão começa a mudar quando deixamos de reconhecer o perigo e passamos a alimentar aquilo que surgiu dentro de nós.
Um pensamento que deveria passar começa a receber espaço.
Uma lembrança começa a ser romantizada.
Um limite que antes era inegociável começa a parecer exagerado.
Uma falta ao grupo parece não fazer diferença.
Depois vem outra.
A terapia que antes considerávamos necessária começa a parecer dispensável.
As pessoas que nos ajudavam a permanecer firmes vão ficando distantes.
Então aparece aquele pensamento:
“Agora eu estou bem.”
Depois:
“Eu consigo me controlar.”
E finalmente:
“Só uma vez não vai acontecer nada.”
Perceba: talvez a substância ainda nem tenha chegado às mãos, mas alguma coisa já começou a acontecer.
Por isso, muitas vezes, a recaída não começa quando a droga entra no organismo.
Ela pode começar muito antes.
Começa quando aquilo que deveria apenas passar pela nossa mente encontra lugar para permanecer.
Quando o desejo deixa de ser apenas percebido e começa a ser alimentado.
Quando aquilo que antes reconhecíamos como perigo passa a ser negociado.
Quando começamos a abandonar silenciosamente os padrões, os limites, os relacionamentos e os cuidados que Deus utilizou para nos ajudar a reconstruir a vida.
Tiago diz:
“Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado...”
O desejo alimentado produz alguma coisa.
E, trazendo esse princípio para a realidade da dependência química, precisamos aprender a reconhecer o processo antes que ele chegue ao último estágio.
Talvez seja justamente esse um dos grandes propósitos da prevenção à recaída: perceber os sinais enquanto ainda podemos pedir ajuda, conversar com alguém, retornar ao grupo, procurar quem nos acompanha, retomar as terapias, reorganizar a rotina e reconhecer:
“Alguma coisa dentro de mim não está bem.”
Não precisamos esperar a primeira cerveja.
Não precisamos esperar a primeira carreira.
Não precisamos esperar a primeira pedra.
Não precisamos esperar perder novamente aquilo que levou tanto tempo para ser reconstruído.
Se a queda pode ser um processo, a vigilância também precisa fazer parte do processo de recuperação.
E se eu já tiver recaído?
Existe ainda algo fundamental.
Se você está lendo estas palavras depois de uma recaída, esta reflexão não foi escrita para condená-lo.
Foi escrita porque existe esperança.
Talvez você tenha caído.
Talvez tenha voltado para um lugar onde jurou que nunca mais pisaria.
Talvez esteja olhando para tudo aquilo que perdeu e pensando:
“Acabou. Para mim não existe mais jeito.”
Eu também já pensei assim.
Mas uma queda não precisa ser o último capítulo da nossa história.
A Bíblia diz:
“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará...”
O mesmo Deus que colocou pessoas no meu caminho quando eu já não acreditava em mim continua sendo poderoso para levantar aquele que caiu, restaurar aquilo que foi quebrado e ensinar novamente a caminhar.
A recuperação não precisa terminar porque houve uma queda.
Pode ser necessário reconhecer o que aconteceu, pedir ajuda, retornar ao tratamento e reconstruir aquilo que foi abandonado.
Mas ainda existe caminho.
Ainda existe esperança.
Ainda existe restauração.
Conclusão para reflexão
A ressocialização é uma conquista fundamental.
Recuperar a possibilidade de trabalhar, estudar, amar, construir amizades, formar uma família, passear e participar novamente da sociedade faz parte da reconstrução da vida.
O problema não está em voltar a viver.
O desafio está em não abandonar, justamente porque a vida melhorou, aquilo que ajudou a tornar essa nova vida possível.
Por isso, diante da história que acabamos de acompanhar, algumas perguntas merecem reflexão:
Em que momento ocorreu a recaída?
Foi quando apareceu o crack?
Quando veio a cocaína?
Quando ele tomou a primeira cerveja?
Quando aceitou o primeiro happy hour?
Quando começou a faltar aos grupos?
Ou quando, pouco a pouco, deixou de perceber como importantes as práticas que sustentavam sua recuperação?
Talvez não exista um único momento.
Talvez a grande lição esteja justamente aí:
Antes de chegar às mãos, muitas vezes a recaída passa pelos pensamentos, pelos hábitos, pelas escolhas, pelos relacionamentos e pela rotina.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Quando foi a última vez que usei?”
Mas também:
“Como está a minha vida hoje?”
Como estão meus pensamentos?
Como estão meus relacionamentos?
Como estão os limites que estabeleci para proteger minha recuperação?
Tenho permanecido próximo das pessoas que me ajudam?
Tenho mantido aquilo que aprendi?
Ou estou, pouco a pouco, negociando coisas que um dia compreendi que eram essenciais?
Reconhecer esses sinais não significa viver com medo de voltar à sociedade.
Significa aprender a viver nela com consciência.
Porque recuperação não é apenas parar de usar uma substância.
É construir e preservar um novo modo de viver.
E talvez uma das maiores vitórias não seja somente poder dizer:
“Hoje eu não usei.”
Mas olhar para nossa caminhada, reconhecer os sinais enquanto ainda estão longe da substância e dizer:
“Eu conheço esse caminho. Sei onde ele pode terminar. E, pela graça de Deus, hoje escolho não continuar por ele.”
E, quando chegar o momento de voltar ao trabalho, reconstruir amizades, estudar, passear, amar e ocupar novamente seu lugar na sociedade, não se esqueça de algo muito simples:
Lembre-se: você está em recuperação. O mundo não.
O mundo continuará oferecendo seus convites, suas festas, seus bares, suas bebidas e inúmeras situações que talvez não representem perigo algum para outras pessoas.
Não espere que o mundo se adapte à sua recuperação.
Aprenda, com a ajuda de Deus e das pessoas que caminham com você, a proteger sua recuperação enquanto volta a viver no mundo.
